A segurança de máquinas em números

De acordo com as estatísticas de acidentes de trabalho do Eurostat, a União Europeia registou 2,97 milhões de acidentes de trabalho não fatais e 3286 incidentes fatais em 2022, sendo que mais de um quarto das lesões fatais foram relacionadas com máquinas ou equipamentos de manuseamento.

Estes números alarmantes destacam a razão pela qual a segurança não pode ser uma prioridade secundária. Quando uma máquina funciona sem as devidas proteções, as consequências são imediatas e severas: danos nos equipamentos, paragens de produção dispendiosas, ferimentos graves ou até repercussões legais. Por outro lado, integrar a segurança em sistemas desde o início transforma as máquinas em ativos que geram fiabilidade, eficiência e confiança.

Porque é que a segurança de máquinas é mais importante do que nunca

O papel da segurança de máquinas evoluiu drasticamente na última década. O que antes era visto apenas como um requisito de conformidade, é hoje uma prioridade crítica para os negócios.

Vários fatores impulsionam esta mudança:

  • Automação e digitalização: as máquinas modernas são mais rápidas, mais potentes e interligadas. Embora isto aumente a produtividade, também apresenta riscos. Uma máquina mal protegida ou vulnerável pode expor os operadores a acidentes ou ser explorada num ciberataque.
  • Regulamentação mais estrita: o novo Regulamento de Máquinas da UE (2023/1230), aplicável a partir de janeiro de 2027, reforça as obrigações dos fabricantes. Aborda explicitamente riscos digitais, como software incorporado, IA e cibersegurança, tornando a segurança operacional (safety) e a segurança digital (security) inseparáveis.
  • O elevado custo dos acidentes: além do impacto humano, um único incidente pode resultar em indemnizações, multas, tempo de inatividade e danos na reputação da marca. Na UE, os acidentes custam às empresas milhares de milhões de euros todos os anos, só em dias de trabalho perdidos.

Em suma, a segurança de máquinas deixou de ser opcional. As empresas que incorporam a segurança e a proteção nos seus processos de construção encontram-se melhor posicionadas para proteger as pessoas, salvaguardar a produtividade e permanecer competitivas num mercado cada vez mais exigente.

Panorama regulamentar em detalhe

A segurança de máquinas baseia-se em regulamentos e normas concebidos para proteger os operadores e assegurar a conformidade em todos os mercados.

Regulamento da UE 2023/1230 relativo às máquinas

Na Europa, o Regulamento da UE 2023/1230 relativo às máquinas é o elemento fundamental. Sendo o substituto da antiga Diretiva Máquinas, o regulamento harmoniza as regras entre os Estados-Membros da UE e introduz novos requisitos para as tecnologias digitais. O seu objetivo é garantir a segurança das máquinas não só mecanicamente, mas também em termos de software e cibersegurança.

Fluxo das normas de segurança de máquinas

Para aplicar este regulamento na prática, as normas internacionais fornecem métodos claros aos engenheiros para avaliar e implementar a segurança. Três dos métodos mais importantes são:

ISO 12100 → Avaliação de riscos

  • Princípios gerais para a identificação de perigos e redução de riscos.
  • Princípio básico de todas as medidas de segurança subsequentes.

ISO 13849 → Performance Level (PL)

  • Concentra-se nas partes dos sistemas de controlo relacionadas com a segurança.
  • Determina a fiabilidade com que um sistema executa funções de segurança.

IEC 62061 → Safety Integrity Level (SIL)

  • Aplica-se a sistemas elétricos, eletrónicos e programáveis.
  • Define a probabilidade de falhas nas funções de segurança.

Em conjunto, estas normas apresentam etapas estruturadas: avaliação de riscos (ISO 12100), conceção de controlos confiáveis (ISO 13849) e a respetiva validação em relação aos requisitos SIL (IEC 62061).

Compliance: Não negociável

Para fabricantes e construtores de máquinas, a compliance não é negociável. O incumprimento dos requisitos coloca em risco o acesso ao mercado, gera custos elevados em reformulações e, mais do que isso, provoca danos pessoais que podiam ser evitados.

Construir em termos de segurança: princípios e metodologia

A segurança de máquinas eficaz não consiste em instalar dispositivos de proteção no final do processo. Trata-se de incorporar princípios de segurança em todas as etapas da conceção e da operação.

A abordagem combinada pode ser dividida em quatro etapas principais:

1. Redução de riscos na origem

  • A máquina mais segura é aquela em que os riscos são eliminados durante a fase da conceção.
  • Exemplo: Uma máquina de embalamento concebida com lâminas de corte embutidas elimina o perigo antes mesmo de se pensar em proteções.

2. Segurança funcional

  • Os sistemas de controlo relacionados com a segurança devem sempre desempenhar as suas funções, mesmo em caso de falhas.
  • Exemplo: Uma linha de transporte equipada com barreiras fotoelétricas deve parar de forma fiável se alguém entrar na zona de perigo, independentemente de erros do sistema.

3. Redundância e fiabilidade

  • Os sistemas críticos geralmente incluem redundâncias para reduzir o risco de falhas.
  • Exemplo: As células de soldadura robótica podem utilizar paragens de emergência de duplo canal. Se um falhar, o outro continua a garantir a paragem.

4. Validação e melhoria contínua

  • A segurança só é comprovada após ser testada. Ferramentas como SISTEMA validam os performance levels (PL) ou os safety integrity levels (SIL).
  • Exemplo: Um sistema de controlo de quinadeira pode ser analisado e verificado antes de ser certificado como seguro para utilização.

Ao tratar a segurança como um processo de ciclo de vida, desde a conceção até à validação e manutenção, as empresas garantem a compliance, reduzem o tempo de inatividade e aumenta a confiança com os operadores.

Construção de uma estrutura de avaliação de riscos

No cerne da segurança de máquinas reside a estrutura de avaliação de riscos. Ela proporciona a estrutura para a identificação de perigos, priorização de riscos e seleção de proteções adequadas.

Um processo comum segue três etapas:

Identificação de perigos

  • Analisar riscos mecânicos, elétricos, térmicos e de interação humana.
  • Exemplo: Numa unidade de engarrafamento, os riscos podem incluir pontos de entalamento nos transportadores ou componentes de alta tensão expostos.

Avaliação e priorização de riscos

  • Prever a gravidade dos danos e a probabilidade de ocorrência.
  • Exemplo: Uma lâmina de rotação rápida representa um risco muito superior ao de um transportador lento e exige controlos mais rigorosos.

Definição de medidas de redução de riscos

  • Aplicar a "hierarquia de controlos": eliminar riscos sempre que possível e, depois, protegê-los, bloqueá-los ou controlá-los com sistemas de segurança fiáveis.
  • Exemplo: Um braço robótico pode combinar barreiras fotoelétricas, proteções físicas e funções de segurança de controlo de movimento.

Documentar este processo é essencial. Ele constitui a prova de conformidade com a ISO 12100, apoia auditorias e garante que as decisões se baseiem em análises estruturadas e não em suposições.

A segurança não é opcional, é engenharia inteligente

Sejamos honestos, se constrói máquinas e não pensa na segurança, está no caminho errado. A segurança não é um mero pormenor, é parte integrante do desempenho, da fiabilidade e da reputação. Os acidentes custam tempo, dinheiro e confiança. Mas uma construção de segurança inteligente evita tudo isso. Não se trata apenas de evitar lesões. Trata-se de manter as máquinas em funcionamento, a confiança das equipas e a fidelidade dos clientes.

Eis o que uma boa segurança proporciona:

  • Menos paragens imprevistas, graças a sistemas de bloqueio e proteção robustos.
  • Maior vida útil das máquinas, devido à melhor manutenção e à redução do desgaste das máquinas seguras.
  • Operadores empenhados, que sabem que o seu ambiente é concebido cuidadosamente.
  • Credibilidade junto dos clientes, que esperam que a responsabilidade seja a norma.

Considere uma linha de embalamento equipada com travas de segurança modernas: não se limita a proteger pessoas, também aumenta o OEE ao reduzir o tempo de inatividade. A segurança não é um centro de custos. É um multiplicador de desempenho.

A segurança de máquinas é mais do que um requisito de compliance, é uma responsabilidade e uma oportunidade. Ao estarem alinhadas com os regulamentos, aplicarem princípios de engenharia comprovados e seguirem uma metodologia de construção estruturada, as empresas protegem as pessoas e salvaguardam a produtividade. Uma estrutura de avaliação de riscos robusta assegura a identificação e redução de perigos, enquanto a melhoria contínua mantém a eficiência dos sistemas a longo prazo.